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A preto e branco
Luís Cirilo Carvalho
2018/10/02 08:38
"A Preto e Branco” é uma coluna de opinião que procurará reflectir sobre o futebol português em todas as suas vertentes, de uma forma frontal e sem tibiezas nem equívocos, traduzindo o pensamento em liberdade do seu autor sobre todas as questões que se proponha abordar.

O passado, tendo um lugar importante na nossa memória, deve ser contextualizado como algo que teve o seu tempo, que não volta, e por isso não vale a pena ficarmos agarrados a ele como se contivesse alguma solução para o futuro.

O futebol, modalidade mais que centenária e com expressão mundial inigualável, tem naturalmente o seu passado, as suas lendas, as suas memórias dos grandes jogos, dos grandes jogadores e treinadores, das grandes competições.

Mas não pode viver disso.

Porque caso contrário os recintos ainda seriam pelados, não haveria substituições, as botas dos jogadores continuariam a ter travessas, não haveria transmissões televisivas e por aí fora, naquilo que podia ser um estendal de diferenças em relação ao presente.

Vivemos outros tempos.

E por isso, na atualidade, o dinheiro tem um papel absolutamente decisivo no futebol, relegando para as memórias longínquas conceitos tão engraçados como o “amor à camisola” ou o “amadorismo” dos praticantes.

Hoje, tudo se faz e gira em volta do dinheiro.

Do dinheiro das televisões – essencialmente - do dinheiro dos patrocínios, do dinheiro do merchandising, do dinheiro da publicidade.

E quem tem dinheiro tem ambições porque quem não tem está cada vez mais relegado a um papel secundário, de figurante, perante aqueles que dispõem de meios superiores que lhes permitem fazer a diferença na qualidade futebolística das suas equipas.

Dir-me-ão que sempre assim foi e que já no tempo das “balizas às costas” havia os mais ricos e os pobres em função do número de adeptos e consequentes receitas de bilheteira e cotizações que era o que nesse tempo fazia a diferença.

É verdade.

Mas as diferenças nesses tempos eram menores em relação aos tempos actuais em que se vai verificando que em quase todo o lado (a Inglaterra será a saudável excepção) os ricos estão cada vez mais ricos e os outros cada vez mais remediados.

Uma das grandes responsáveis disso foi e é a UEFA.

Que mais do que defender o futebol e a sua competitividade, que está na génese da paixão mundial por esse desporto, se preocupa cada vez mais em defender os negócios e os interesses das gigantescas multinacionais que nele investem em troco de lucros chorudos.

A Liga dos Campeões foi o primeiro passo na subversão do futebol.

Porque criou uma falsa elite (quantos clubes jogam na Liga dos Campeões que nunca foram ou não são há muito tempo campeões de coisa nenhuma?) a quem vai enchendo de dinheiro com isso cavando fossos internos nos respectivos campeonatos que são cada vez mais intransponíveis e minam a competitividade e interesse dos mesmos.

Olhemos alguns países a titulo de exemplo.

Em Portugal, FC Porto e Benfica.

Em Espanha, Barcelona, Real Madrid e Atlético de Madrid.

Em França, PSG, Marselha e O. Lyon.

Na Alemanha, Bayern e Borussia Dortmund.

Em Itália, Juventus, Nápoles, Inter e Roma.

Na Rússia, Zenit e CSKA de Moscovo.

Na Holanda, Ajax e PSV

NA Suiça, o Basileia.

Na Bélgica, Anderlecht e Brugges.

Na Ucrânia, Dinamo de Kiev e Shakhtar Donetsk.

Nestes dez campeonatos, dos mais competitivos da Europa, os clubes que referi são aqueles que estão sempre na Liga dos Campeões (pode um ou outro falhar uma ou outra vez mas é a excepção que confirma a regra) e que por isso cada vez recebem mais dinheiro, quer pela presença, quer pelos pontos conquistados, quer pelas diversas etapas que vão ultrapassando e por isso estão cada vez mais senhores de um poder financeiro que os seus concorrentes internos não tem.

Na muito mais democrática Inglaterra, onde se valoriza o negócio mas ama o futebol (embora haja “clientes” habituais da Liga dos Campeões - os dois de Manchester, Liverpool, Arsenal, Chelsea) o acesso à mesma está mais aberto e permite que outros clubes como o Tottenham, e o Leicester (como campeão, convém recordar) também lá possam chegar como representantes de um país que já conheceu vinte e quatro campeões nacionais de futebol!

É evidente que o segredo disso está na paixão pelo futebol e na negociação centralizada dos direitos televisivos, mas não é disso que quero hoje falar especificamente.

O que está em causa, verdadeiramente, é o ser a própria UEFA que, com esta política financeira da Liga dos Campeões, está a cavar fossos imensos nas competições nacionais entre os que têm o dinheiro europeu e os que têm de se contentar com receitas nacionais.

Objectivo?

Muito simples.

Tornar as competições nacionais tão monótonas e desinteressantes que torne obrigatória a criação da tão desejada (pela UEFA e pelos patrocinadores) Superliga Europeia, com os fabulosos proveitos financeiros que se adivinham para quem nela investir e para os clubes que nela participem.

Os outros, bem, os outros ficarão remetidos para as competições nacionais que serão uma versão profissional dos “solteiros contra casados” a jogar quando as competições europeias lhes derem tempo e espaço.

Pessimismo?

Apenas realismo facilmente confirmável por quem andar atento a estas coisas dos campeões e dos milhões.



Comentários (10)
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motivo:
MA
Mais um. . .
2018-10-12 13h46m por Malainpn
Mais um artigo de opinião sem conteúdo ou interesse. Já um clássico. . .

No entanto foram escritas algumas coisas nos comentários, que gostaria de aflorar.

DanielMarques88 escreve que os clubes pequenos não sabem gerar riqueza e/ou são mal governados. No entanto são esses clubes pequenos que não precisam de "empréstimos" a cada 6 meses e andam a pagar dividas com mais empréstimos. O Sporting esteve e falência técnica em Agosto e o Porto está em falência técnic...ler comentário completo »
carlos_batuta
2018-10-04 16h32m por bludouro
Sim, e porque não? SE, nos maiores interesses da democracia no futebol, fosse possível "ditar" uma resolução a favor duma partilha "socialista" de honras e de premiação, porque não (he, he)?
Democracia, só para fazer de conta?
2018-10-03 23h34m por carlos_batuta
Fracos e fortes, todos contra todos, o ano todo, sem bota-fora. Dinheiro para todos, em fatias iguais, indepentemente dos resultados. No fim todos os clubes recebiam uma taça pequenina. E ficávamos todos contentes.
Não sendo advogado de defesa da UEFA
2018-10-03 23h30m por carlos_batuta
Pessoalmente a Liga dos Campeões enerva-me pelo facto de jogarem e ganharem sempre os mesmos, mas como produto de futebol-desporto-espectáculo é o equivalente à NBA.
O futebol europeu tem de ter uma competição assim.
É aliás um modelo copiado pelas outras modalidades - basquetebol, andebol, e recentemente o próprio hóquei em patins - para crescerem (ainda que não gerem tanto $$$).

Acho que a última remodelação é benéfica para a competição. Desde que a UEFA - a...ler comentário completo »
Em total concordância com bludouro
2018-10-03 23h09m por carlos_batuta
Na tal democrática Inglaterra, de onde chegou o impulso que projectou Chelsea e Manchester City? Do dinheiro das transmissões televisivas da Liga? Não me parece. O próprio pobrezinho Leicester, tem um dono com dinheiro qb.
E vi no início da época uma notícia com infografia apresentando os patrocinadores principais dos 20 clubes da Premierleague: 9 eram casas de apostas, e creio que com uma excepção os outros eram bancos e entidades financeiras.

Sobre o dinheiro. O v...ler comentário completo »
Money League
2018-10-03 20h44m por bludouro
Tantas contradições no mesmo texto, meus amigos! Primeiro, o autor reconhece que mudanças são necessárias (e benéficas) para o jogo - "que o futebol não pode viver do passado" - mas depois demonstra-se resistente às suas evoluções - quer nos via dos meios tecnológicos quer financeiros da gerência do desporto-rei, e sobretudo ao desenvolvimento da Liga dos Campeões na virtual Superliga. . .

Torna-se saudoso do “amor à camisola” e do “amadorismo” no futebol como se fosse uma c...ler comentário completo »
Falou bem
2018-10-02 11h08m por Triper
Mas não vejo aqui soluções no artigo fora criticar que é uma liga cada vez menos de campeões e mais de cifrões, algo que também concordo mas ao mesmo tempo discordo porque se tal fosse exclusiva a campeões, seria ainda pior.

A meu ver o erro está na maneira como são escolhidas as equipas pois alguns países nem o campeão têm nela e isso sim, está errado. Deviam dar valor aos campeões em primeiro lugar e então tratar do resto para as restantes equipas.

E já agor...ler comentário completo »
Solução?
2018-10-02 10h21m por otario007
Então pelo que percebi a solução seria apenas deixar entrar um clube por país? Como é que isso ajudaria alguma coisa? O fosso seria ainda maior, ao menos agora tens sempre 2/3 clubes que lutam pelo título de campeão nacional, se apenas fosse um existiria sempre um campeão.

"É evidente que o segredo disso está na paixão pelo futebol e na negociação centralizada dos direitos televisivos, mas não é disso que quero hoje falar especificamente. "

Diga-me empiricamente...ler comentário completo »
Bom artigo
2018-10-02 09h57m por DanielMarques88
Bom artigo no geral, nao disse nenhuma mentira. . .

MAS, o que convem dizer tambem é que os clubes "pequenos" em Portugal nao conseguem investir em nada. Nao sabem escolher jogadores, nao geram adeptos, nao fazem rigorasamente nada.

Quando um clube começa a ser inteligente, em ficar com as suas pérolas, em vez de vende-las por trocos. Ai temos equipas que comecem em ser competitivas.

Exemplos?

Young Boys, investiram num p...ler comentário completo »
Champions
2018-10-02 09h14m por gp99
Então o que devemos fazer? Terminar com a Champions?
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